23
Jun
2020

Perspectivas de líderes da saúde para o cenário pós-pandemia

Por: CBEXs

Importância, modelos, crises e redescobertas foram destaques em webinar promovido pelo Conexão CBEXs Nacional

Certamente a pandemia do novo coronavírus, que afetou a todos em escala global, deixará lições para que, ao menos, se evite caos semelhante. O que vai acontecer em um cenário pós-pandemia? Como a sociedade se comportará? Questionamentos como estes pautaram o webinar do Colégio Brasileiro de Executivos da Saúde (CBEXs) ocorrido no dia 27/5. A edição da videoconferência organizada pelo Conexão CBEXs Nacional foi considerada um sucesso, com mais de 300 inscritos para acompanhar a visão de líderes da saúde sobre o “novo normal pós-pandemia”.

Foram convidados para o debate o ex-presidente da Qualicorp e presidente da QSaúde, José Seripieri Jr.; o ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-presidente da Interfarma, Antônio Britto, e o diretor-geral da Sociedade Beneficente de Senhoras Hospital Sírio-Libanês, Paulo Chapchap. A mediação foi do presidente do Conselho de Administração do CBEXs, Francisco Balestrin.

Saúde suplementar

Seripieri abriu as exposições falando sob as perspectivas da saúde suplementar. O próprio já vinha preconizando há algum tempo que o modelo de negócios das operadoras deveria migrar, gradativamente, de um modelo baseado em finanças para um modelo assistencial, onde o lucro não se dará na venda, mas sim na compra.

“Acho que o futuro da saúde suplementar passa por uma grande plataforma de tecnologia, de informação e de uma mudança de cultura, onde a operadora deverá ser efetivamente uma parceira junto com o médico no tratamento em plenitude do usuário. Um exemplo hipotético, mas real é que raramente uma operadora vai ligar para o dono de um hospital e dizer que o melhor médico de tal especialidade está ali (para o tratamento de determinado paciente), na pratica isso não acontece. As operadoras adotam um modelo que é “você vai onde você precisa (dentro da rede credenciada)”, afirmou Seripieri.

De acordo com o executivo, esse modelo não é curador, não passa por um núcleo de informação e não tem efetivamente uma parceria de cultura de comprometimento com o êxito da saúde do usuário.

Importância do SUS

“O sistema de saúde suplementar está estagnado há pelo menos dez anos no número de clientes e isso tem impacto no Sistema Único de Saúde (SUS), que é uma sistema do qual, particularmente, sou favorável e enalteço, sobretudo no aspecto acadêmico e uma das maneiras de melhor se solucionar o SUS é ter menos usuários nele e mais usuários na saúde suplementar, e não o inverso, que está há pelo menos dez anos estagnado, quantitativamente falando”, sentenciou Seripieri.

O diretor-geral do Sírio-Libanês veio na sequência salientando que o diferencial na intermediação do serviço de saúde tem que ser a gestão adequada da saúde dos usuários e que o resultado que vai se obter tanto melhor será quanto melhor for realizado. Quanto mais baseado em dados, modelos preditivos e conhecimento profundo do paciente em cada um dos seus pontos de contato, que é também um modelo de captura de dados para se criar modelos preditivos e fazer a prevenção da saúde, da doença e assim por diante.

“Em relação ao SUS, é uma concepção extraordinária e uma das sortes que temos nessa pandemia é a sua existência apesar de todos os erros que estamos cometendo, que nós enquanto sociedade estamos cometendo”, pontuou Chapchap.

Crises

Chapchap mencionou que se diz que a sociedade vive hoje três grandes crises: sanitária, econômica e política. A última porque os entes políticos, que têm crença e não evidência, têm dobrado continuamente suas apostas no conflito e nas divisões que os diferenciam, causando extremo prejuízo à sociedade brasileira. Contudo, segundo ele, há também uma quarta crise, que o senso comum inclui no âmbito da crise econômica, mas não é.

“A crise social é a constatação de uma sociedade como a nossa, com as desigualdades que ela tem, não só economicamente, mas educacionais e todo o resto, é absolutamente insustentável. E estávamos convivendo, nos acostumando com uma situação absolutamente inaceitável. Quando veio a pandemia, começamos a apanhar da desigualdade, com a evidência dela e de que estamos todos juntos no mesmo barco”, disse Chapchap. 

Segundo ele, trata-se de uma oportunidade – e faz questão de ressaltar que não diz que esta crise é boa como oportunidade, uma vez que o sofrimento que ela causa não deveria nunca ter existido e é subestimado, no entanto ela cria uma oportunidade para que se mude uma cultura, de que é mais que necessário se diminuir as desigualdades no acesso à saúde, educação, segurança, habitação, transporte coletivo no Brasil.

Redescobertas

“O que estamos vivendo não é um ataque a uma ideologia, a uma cultura, a uma geografia ou a uma especificidade do nosso mundo. Estamos vivendo um ataque rigorosamente à espécie humana, é isso que nos fragiliza, porque as armas tradicionais – que são o dinheiro, a tecnologia, o armamento, elas são inúteis, porque podem minorar as consequências, mas não eliminam a ocorrência”, disse Britto.

Para ele, os últimos meses trouxeram “descobertas” como a valiosa importância da ciência e o sentimento de solidariedade. O momento atual é de redescobertas e ressignificação de valores. Foi necessária uma pandemia para que se percebesse o valor da ciência, do global e não nacional, do solidário e humano, do sereno e não do histérico, do tolerante, da igualdade e da justiça social.

“Descobrimos nessa pandemia que política não faz saúde, ao contrário, política está fazendo morte, mas a saúde tem que fazer política. Ela tem que ajudar a fazer política. A saúde – pelos empresários, pelos pacientes, pelos médicos, tem que sair dessa epidemia armada para valorizar enfermeiro, para rediscutir o que é ato médico, para rediscutir o que é o SUS, para impedir novos governantes de fazerem contra a ciência o que estão fazendo no Brasil. Tem uma guerra que vem pela frente e essa guerra tem uma vantagem para quem quiser entrar nela, porque que os valores a serem defendidos foram claramente explicitados na epidemia, mas eles não estão vitoriosos. Eles serão vitoriosos dependendo de nós como sociedade, especialmente no Brasil, reocuparmos o Brasil”, garantiu Britto.