16
Jul
2020

Panoramas acerca do novo modelo competitivo da saúde

Por: CBEXs

Lideranças destacam as mudanças que virão no cenário pós pandemia, a partir das lições e aprendizados deixados pela crise do coronavírus

Desde o início da pandemia do coronavírus, o Colégio Brasileiro de Executivos da Saúde (CBEXs) e seus chapters regionais vêm realizando uma série de conferências online com importantes líderes da saúde nacional – e internacional – para discutirem as mudanças que o setor enfrentará no que se convencionou chamar de “novo normal”. Muito foi abordado sobre o que as instituições fizeram e têm feito na batalha contra o vírus, mas a partir da última semana um novo ciclo se iniciou: a cada webinar um chapter regional assume a organização do evento e para começar, o Chapter Rio de Janeiro trouxe à tona “O novo ciclo na liderança, na gestão e na assistência”.

Mediado pelo presidente do Conselho de Administração do CBEXs, Francisco Balestrin, e pelo presidente do Chapter Rio de Janeiro da entidade, Evandro Tinoco, o debate contou com as participações da presidente-executiva do Grupo Sabin Medicina Diagnóstica, Lídia Abdalla; do diretor de transformação em saúde na Johnson & Johnson Medical Latam, Fabrício Campolina; e do superintendente corporativo e CEO do Hospital do Coração (HCor), Fernando Torelly.

Segundo Lídia, a crise do coronavírus deixa como aprendizado a importância e relevância da medicina diagnóstica para além da realização de exames, colocando-a como parte essencial da assistência e da humanização em saúde. “Medicina diagnóstica é colaborar com o médico na correta solicitação e interpretação de um exame, é oferecer ao paciente informação e orientação. Ela tem, sim, sua importância no diagnóstico e no tratamento, mas a maior importância dela é na prevenção. Tudo de novo que conquistamos ao longo dos anos, fizemos pela implementação de novas tecnologias, pelos estudos e pelas pesquisas de novos exames, de novos métodos e de quanto isso nos trouxe de novas possibilidades de exames para trabalharmos preventivamente. Me refiro a toda área de genômica e de genética e o quanto isso pode ser um forte aliado na melhor saúde e na melhor assistência ao paciente”, destacou.

Para ela, investimento em ciência e pesquisa no setor saúde como um todo é outro fator fundamental para o amanhã, já que o Brasil dispõe de um imenso capital intelectual, além de grandes empresas públicas e privadas. Com a pandemia, viu-se que o Sistema Único de Saúde (SUS), mesmo com tantas limitações, foi excepcional em assistência, empenho e atendimento da população.

“Nós podemos fazer muito melhor se tivermos mais investimentos em ciência e pesquisa. Eu acho que é papel de todos nós, líderes e empresas, fomentarmos isso nesse futuro próximo, porque esse pode ser um dos caminhos para a retomada econômica do Brasil. Estimularmos para que de fato a indústria brasileira possa produzir mais e, assim, consumirmos mais aqui”, destacou Lídia.

Valor em saúde

Com a palavra, o diretor de transformação em saúde na Johnson & Johnson Medical Latam disse que, pensando o que será esse “novo normal”, o qual provavelmente virá no início do próximo ano com a chegada das vacinas contra a Covid-19, a liderança também precisará passar por ajustes. O executivo ainda fez referência a um estudo recente da Confere, que destaca as características dos líderes que serão mais valorizadas: agilidade, no sentido de conseguir responder rapidamente às mudanças dentro do mercado de saúde; empatia, dada a importância de enxergar o ser humano à nossa frente; e colaboração, uma vez que sem ela não será possível vencer esse desafio.

“Em relação à agilidade, acho que precisamos de uma gestão mais inovadora. A transformação digital pautará a próxima década, a colaboração homem-máquina mais do que nunca será fundamental para proporcionarmos ganhos de produtividade. Fundamental também é pensarmos a questão da sustentabilidade. Quando olhamos para frente, temos de provocar mudanças nesses modelos de remuneração. Acredito que devemos ver uma migração maior e mais acelerada como consequência de aprendizados dessa pandemia, de acordos baseados em fee for service, que remuneram por volume, para acordos remunerados pelo valor. E sem dúvida veremos a gestão dos grandes hospitais, dos planos de saúde e da indústria trabalhando nessa direção”, afirmou Campolina.

Modelo competitivo

De acordo com Torelly, a pandemia provocou grande tensão em todos, especialmente nos profissionais de saúde, e deixou sequelas emocionais. Por causa disso, o HCor tem estimulado suas lideranças a tirarem férias agora. Segundo ele, chegou um momento em que não se sabia qual seria o tamanho do volume de atendimento nem se a instituição teria condições de atender a todos. No início também não se sabia como seria a contaminação da força de trabalho. “Nós exercitamos a incerteza, a solidariedade. Tenho dito que vencer a Covid-19 em uma instituição é conseguir atender todos os pacientes de forma adequada, não perder nenhum trabalhador de saúde e não perder nenhum posto de trabalho. Se conseguir esse conjunto, você efetivamente terá vencido a Covid-19”, enfatizou o executivo.

O CEO do HCor disse que, para olhar para frente, primeiro faz-se necessário tentar entender qual é a realidade em que viveremos a partir de agora. O Brasil e o mundo passarão por sua maior crise econômica no pós-pandemia. O desemprego no país, que em 2014 era de 5%, hoje está em 12,9%, e chegará próximo de 20%. Há seis anos havia 50 milhões de brasileiros com acesso a plano de saúde; hoje esse número está em 46,9 milhões e é muito provável que chegue a 42 milhões, porque as pessoas perderão o emprego e, consequentemente, o plano de saúde.

“Você tem outro modelo econômico, outro cenário competitivo, e o Brasil como Estado viverá sua maior crise fiscal e a maior necessidade de potencializar o sistema público de saúde, por essas vidas da saúde suplementar que acabarão migrando para ele. Para as organizações de saúde, eu vejo três mudanças importantes: o modelo organizacional, o modelo assistencial e o modelo de negócios. Tem uma grande vantagem nisso, porque todos nós estamos em uma mesma linha de largada no novo modelo competitivo da saúde e temos a possibilidade de sermos os líderes desse novo ‘anormal’ que viveremos a partir de agora, mas também temos oportunidade de não sermos os líderes se ficarmos parados”, finalizou Torelly.