Governança e o Jogo de Xadrez

Trabalhar com gestão de saúde parece, muitas vezes, semelhante a  jogar uma partida de xadrez. As peças são limitadas e cada uma cumpre uma função diferente – cabe ao gestor posicioná-las da forma mais vantajosa possível em um cenário que está sempre em evolução. Às vezes, cabe ao gestor tomar decisões difíceis: vale a pena sacrificar um recurso valioso, como um bispo, por uma vantagem estratégica?
Cada gestor pode jogar de uma maneira: há aqueles mais agressivos; os mais cautelosos; os que preferem trabalhar com agilidade, com poucas peças e os que lidam bem com a complexidade de um tabuleiro cheio.

A metáfora, porém, se esgota aí. Gerir não é um jogo de xadrez – é infinitamente mais complexo. E esta complexidade ocorre por vários motivos: pessoas não são peças que podem ser movidas em um tabuleiro, e raramente ficam contentes paradas no mesmo lugar; as jogadas dos adversários não ocorrem uma de cada vez nem tampouco têm um mínimo de previsibilidade, mas são uma infinidade de situações e problemas que cabem ao executivo resolver ao mesmo tempo. Mais do que isto, porém, gerir não é um jogo de xadrez porque é papel do executivo da saúde propor novas regras para o jogo a cada momento.

Os sistemas de governança são justamente as regras sob as quais o jogo se desenrola. São os eles que devem delimitar o que cada stakeholder pode e não pode fazer e qual é a correta responsabilidade de cada um. Há regras escritas e não escritas, há regras impostas de fora e aquelas que nascem de dentro de cada organização. Há, ainda, regras que não devem ser mudadas, que dizem respeito a princípios maiores, como a ética e a centralidade do paciente e os mecanismos que os sustentam, como ferramentas de compliance e de governança clínica.

Naturalmente, um jogo no qual as regras mudam a cada rodada, ou do qual os jogadores desconhecem as regras, desorienta todos os jogadores – é papel do gestor também preservar a estabilidade quando possível e comunicar de forma adequada as mudanças de regras.
Ao se deparar com as difíceis situações do dia-a-dia, quando os recursos parecem insuficientes e as barreiras intransponíveis, pode ser benéfico para o executivo da saúde refletir se é sob aquelas regras que o jogo deve ser jogado. A atenção à governança pode facilitar – e muito – a vida do gestor.