10
Ago
2020

Fortalecimento da atenção primária e remuneração baseada em valor devem pautar saúde no pós-pandemia

Por: CBEXs

Relações entre empresa médica e mercado, corporação médica e paciente, bem como mundo científico e vacina nortearam Conexão CBEXs Nacional, realizada em 5 de agosto

O mundo está imerso em incertezas sobre o futuro após a pandemia de Covid-19. Nem mesmo as inúmeras vacinas que estão em desenvolvimento para proteger da infecção pelo novo coronavírus são garantia de retomada do curso de vida igual ao que tínhamos até cinco ou seis meses atrás. O setor de saúde, embora saia ainda mais reconhecido pela atuação frente ao inimigo invisível, também busca respostas e novas possibilidades para se adaptar ao que está por vir.

O Colégio Brasileiro de Executivos da Saúde (CBEXs) convidou três importantes personalidades da saúde nacional para refletir sobre o que muda no pós-Covid. A conferência on-line ocorreu no dia 5 de agosto, com moderação do presidente do Conselho de Administração do CBEXs, Francisco Balestrin, e do presidente do Chapter CBEXs Rio de Janeiro, Evandro Tinoco.

O Co-Chairman do Conselho de Administração do Grupo Dasa, Romeu Domingues, afirmou que o mundo ficou mais digital, e a saúde pôde, com mais firmeza, praticar a telemedicina. A modalidade de atendimento já é realidade em países europeus e, desde então, vem sendo considerada mais uma importante ferramenta para o enfrentamento dos desafios dos sistemas de saúde universais.

“Vimos que a telemedicina para algumas condições clínicas é eficiente. Claro que não substitui a consulta presencial, mas várias condições que iriam para a emergência foram resolvidas. Ela mostrou que é ferramenta importante e que deve ser discutida com toda a clareza, transparência e cuidado para que não seja feita uma medicina de má qualidade”, disse Domingues.

Para ele, entre os legados que a crise deixará, dois merecem atenção, um bom e outro ruim. Com relação ao primeiro, Domingues enfatizou que o novo coronavírus é muito cruel com quem tem comorbidades, como diabetes, hipertensão, obesidade; portanto, ele serve como um estímulo para que as pessoas cuidem mais da saúde, principalmente a fim de não desenvolverem doenças crônicas. Já o ponto negativo tem a ver com o medo que as pessoas ficaram de procurar por atendimento médico nesse período e, consequentemente, deixaram de realizar exames, consultas e cirurgias. No pós-pandemia, elas certamente chegarão às instituições em estágio mais avançado de suas doenças à procura de tratamento. Será mais um desafio.

Outro quesito abordado por Domingues foi a necessidade de praticar uma saúde mais sustentável, evitando o desperdício. “Tem que ter um uso mais consciente dos exames. Com a pandemia, caiu muito o número deles, mas a volta está sendo antes do esperado. Não queremos repetir exames, fazer outros desnecessários. Se fizermos, não sobrarão recursos para exames genéticos, novas tecnologias. Estamos passando por um novo modelo de remuneração de hospitais, e o médico tem que ser remunerado pelo desfecho”, garantiu o representante do Grupo Dasa.

Fortalecimento

Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Marcelo Queiroga, a principal lição que se deve levar para casa acerca do pós-pandemia, que ainda está longe de chegar, é a necessidade de fortalecer o sistema de saúde, sobretudo o público, afinal é ele que socorre em um momento de fragilidade como o atual. O médico foi assertivo ao lembrar que a Constituição Brasileira deixa claro e evidente que a saúde é direito de todos, assim como é dever do Estado garanti-la por meio de políticas sociais e econômicas.

“Temos que pugnar pela sustentabilidade desse sistema e pela consecução de políticas públicas capazes de mudar os indicadores, inclusive das doenças cardiovasculares. No Brasil, são 14 milhões de indivíduos com doenças do coração, sendo mais de 380 mil óbitos todos os anos. Acresce a esse cenário o problema da pandemia, que já vitima mais gente que infarto do miocárdio. Cabe-nos o desafio de propor soluções. Os problemas já sabemos, e as soluções passam por melhorias da eficiência do sistema, principalmente do público. Não temos um tratamento eficaz, pelo menos cientificamente comprovado, contra o vírus, mas aqueles doentes mais graves precisam de terapia intensiva de qualidade”, afirmou Queiroga.

Ainda de acordo com o presidente da SBC, a eficiência do sistema de saúde está relacionada ao fortalecimento da atenção primária, assim como a uma mudança do modelo de remuneração dos procedimentos médicos da assistência à saúde do país. Isso significa dar cada vez mais espaço à remuneração baseada em valor, cujo pagamento ao profissional não se dá pelo volume de trabalho, e sim pela qualidade do que é oferecido aos pacientes.

Queiroga aproveitou para falar também sobre a Estatística Cardiovascular Brasil: 2020, uma plataforma on-line com milhares de dados sobre as doenças cardiovasculares e o impacto delas no país. A base agrupa informações, números e pesquisas sobre o tema entre os anos de 1990 e 2017 e reúne pesquisadores do Acre ao Rio Grande do Sul, mostrando a importância da integralidade da SBC e desse tipo de iniciativa.

Vacinas

Quando a pauta passou a ser a tão esperada vacina, Queiroga foi categórico. “É fundamental que o Brasil tenha uma política voltada para o fortalecimento do complexo industrial da saúde, não só na questão da fabricação das vacinas, mas para produção de insumos a fármacos mais avançados que possam ser úteis ao nosso sistema de saúde. É inconcebível que tenhamos o maior sistema de acesso universal do mundo e não tenhamos desenvolvido de maneira própria o nosso complexo industrial da saúde”, falou o presidente da SBC.

Não poderia se discutir vacinas sem ouvir o médico imunologista Jorge Kalil, que coordena pesquisa para um imunizante nacional contra o novo coronavírus. Kalil é diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (InCor) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, nunca se viu nada semelhante na história no quesito alta produção da ciência mundial em tão pouco tempo. A Organização Mundial de Saúde já lista mais de 140 pesquisas em andamento para descobrir a prevenção da Covid-19.

“Não achamos que a primeira vacina será a definitiva. Ela tem que nos quebrar o galho agora e nos deixar voltar a trabalhar. Existem várias outras sendo estudadas. Particularmente estou estudando uma, cuja proposta é mais sofisticada. Queremos fazer uma vacina que tenha cobertura maior na população e que desenvolva uma memória melhor. Estamos correndo para uma segunda geração, mesmo porque não tinha como, com os investimentos de que dispomos no Brasil, chegar na frente dos outros. Estou muito orgulhoso de ter conseguido US$ 1 milhão para o desenvolvimento”, comemorou Kalil.