16
Jul
2020

Como hospitais e operadoras lidarão com a grande demanda de saúde que está por vir?

Por: CBEXs

A edição desta semana do Conexão CBEXs Nacional recebeu especialistas para falar dos atendimentos que foram represados durante a crise de COVID-19

A pandemia do novo coronavírus segue em curso no país e diversos estados e municípios estão colocando em prática planos estratégicos para a retomada. Paralelamente, em 9 de junho, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) reestabeleceu os prazos máximos de atendimentos que tinham sido flexibilizados desde março, abrindo mais caminhos para a realização de cirurgias e outros atendimentos eletivos. Considerando que muitos procedimentos ficaram represados nesses três meses, a edição de 10 de junho do Conexão CBEXs Nacional recebeu especialistas para saber como o sistema suplementar trabalhará para gerir essa alta demanda que deve surgir.

Mediado por Francisco Balestrin, presidente do Conselho de Administração do Colégio Brasileiro de Executivos da Saúde (CBEXs), o debate contou com a participação de Luiz Feitoza, sócio co-fundador da Arquitetos da Saúde; Rogério Scarabel, diretor-presidente da ANS; e Rodrigo Lopes, CEO do Grupo Leforte.

Reafirmando as medidas de combate à pandemia tomadas pela Agência, como a rápida inclusão do teste para COVID-19 no rol de procedimentos da ANS e, posteriormente, o envolvimento de mais seis exames auxiliares para diagnóstico e tratamento da doença, Scarabel a retomada dos prazos estabelecidos pela RN nº 259. 

“Em nenhum momento a ANS retirou a cobertura ou recomendou que esses procedimentos não fossem realizados, apenas prorrogou os prazos. Com a nota técnica nº 6 da Anvisa, que traz orientações sobre o retorno das cirurgias eletivas, somada aos posicionamentos de sociedades médicas sobre as melhores condições para esses procedimentos serem realizados sem prejuízo aos casos de COVID-19, nós nos reunimos e fizemos o anúncio de que os prazos estavam reestabelecidos”, declarou o diretor-presidente.

Sobre a demanda represada, Scarabel acredita que a busca levará um tempo maior para aumentar. “Vejo que pode ocorrer um aumento da sinistralidade quando as pessoas sentirem segurança tanto nas operadoras quanto nos prestadores, mas penso que não deve ocorrer como uma avalanche, pois há ainda muito receio em procurar atendimento”, pontuou.

Conhecendo de perto a rotina dos hospitais, Lopes se mostrou preocupado com a sustentabilidade das instituições. Segundo ele, “não dá para medir o tamanho da onda, mas não será apenas uma marola”. No comando do Grupo Leforte, o executivo mencionou que as instituições hospitalares tiveram 40% de queda na receita, sendo que em alguns locais essa porcentagem chega a 70%. 

Para ele, quando as pessoas voltarem a buscar os atendimentos eletivos, não haverá diferenciação entre as especialidades. “As cirurgias eletivas, por exemplo, caíram mais de 80%, desde as mais simples até os procedimentos cardíacos. Com medo da COVID-19, no começo da pandemia os médicos seguraram os atendimentos. A população, também com receio de se contaminar, não compareceu. Quando começarmos a voltar ao volume normal, todas as especialidades virão ao mesmo tempo. O que de fato me preocupa é quanto mais grave esses pacientes ficaram”, explicou.

Já Feitoza acredita que as operadoras sentirão o efeito dessa retomada mais densa dos procedimentos mais tarde, já que atuam em regime caixa de até 90 dias. “É difícil medirmos o impacto das operadoras antes do terceiro trimestre”, disse.

Pensando em um momento posterior, quando o desemprego se mostrar ainda mais relevante e as pessoas deixarem de contar com seus planos de saúde – em sua maioria empresariais – Feitoza falou sobre o cenário da saúde suplementar traçando um comparativo com uma crise recentemente vivida no país. 

Para o executivo, haverá queda significativa no número de beneficiários da saúde suplementar, que gerará ainda mais demanda para o Sistema Único de Saúde (SUS), já sobrecarregado. “Na crise de 2014 as operadoras perderam 3 milhões de beneficiários e até hoje não os recuperou. E, agora, viveremos uma crise ainda pior com a questão do desemprego que já se consolida. Temos pessoas saindo dos planos. Então sabemos que a economia e o desemprego ditarão como essa bomba-relógio vai se comportar”, finalizou.

Telemedicina fortalecida

Para entrar neste avanço tecnológico proporcionado pela necessidade de atender as pessoas remotamente durante a pandemia, Balestrin questionou sobre a relação médico-paciente dentro desse modelo de atendimento.

“Em todos os debates falamos sobre telemedicina e alguém se posiciona enfatizando que há uma preocupação com o distanciamento do paciente e a perda da empatia. Além disso, sabemos que a nossa legislação é antiga, de 2002, e que tivemos uma liberação parcial e emergencial. Será que vamos mesmo prosseguir, que não retornaremos ao que éramos?”, questionou o mediador.

Feitoza foi taxativo: “Aprendemos rapidamente a utilizar a telemedicina e não acredito que, no retorno às atividades, isso deve retroceder”. Porém o executivo também se atentou em dizer que o vídeo jamais substituirá a relação pessoal entre médico e paciente. “A telemedicina pode ajudar a suprir alguns vácuos de acesso e veio para ficar. Mas é preciso, sim, tomar cuidado para que a superficialidade – que muitas vezes já ocorre até no atendimento presencial – não seja ainda mais agravada”, afirmou.

Lopes também enfatizou a importância da telemedicina para maior acesso da população à saúde ao dizer que é muito mais fácil termos centrais de atendimento para levar a medicina à distância do que prover esses especialistas em todas as regiões do Brasil, um país continental. “E não me refiro apenas ao interior da nação, mas também às periferias das capitais. Podemos, com a telemedicina, aumentar a agilidade do acompanhamento oncológico e dar atendimentos indicativos, e não resolutivos, para evitar deslocamentos ou mesmo encher as salas de espera de prontos-socorros sem necessidade”, explicou.

Sobre a legislação, Scarabel reforçou a necessidade de regulamentação da ferramenta, ao mesmo tempo em que apoiou o uso dessa tecnologia. “Tivemos, na Agência, uma nota técnica que explicava que, na questão regulatória, para nós a telemedicina era apenas uma modalidade de consulta que já estava incluída na cobertura e não precisaria de nova incorporação no rol de procedimentos, bastava que operadora e prestadores compactuassem com a medida”, disse lembrando que no último mês a ANS soltou um novo comunicado enfatizando que as operadoras deveriam aceitar as receitas assinadas digitalmente. “Não me parece que tenha volta. Estávamos 20 anos atrasados, então vejo com bons olhos, mesmo sabendo que é algo que precisa ser regulamentado”, declarou.

Mudança de cultura

Todos os debatedores concordam que a pandemia deve provocar uma mudança de cultura na população. Para Feitoza, por exemplo, é possível que os beneficiários dos planos de saúde repensem o uso dos prontos-socorros. “Sabemos que há um contingente de beneficiários que utiliza o pronto-atendimento como uma forma de obter um acesso mais rápido à uma consulta, por exemplo. E, a partir de agora, as pessoas talvez façam uma reflexão melhor sobre os hospitais”, pontuou.

Concordando com Feitoza, Lopes reforçou que o atendimento no pronto-socorro era como um fast-food no qual as pessoas chegavam, eram atendidas e medicadas. Porém, significava um atendimento que gerava um sinistro sem tratar a patologia daquele beneficiário. “É a hora de criarmos outros modelos de remuneração, com foco na atenção primária e com mais resolutividade. Uma assistência que pensa no paciente como um todo”, declarou. Para ele, é preciso aproveitar essa mudança cultural para fortalecer o sistema de saúde.

Já Scarabel acredita que a população ainda levará um certo tempo para voltar a frequentar esses locais por medo da contaminação. E reforça que as emergências não podem deixar de ser atendidas. “É preocupante as pessoas não buscarem atendimento de urgência, pois ficam sujeitas ao agravamento das doenças”, disse.