16
Jul
2020

CBEXs promove debate sobre o papel da liderança em tempos de crise

Por: CBEXs

Webinar contou com a participação dos executivos Antonio Britto e Geraldo Alckmin, que, entre outros, destacaram a falta de serenidade e diálogo na condução da pandemia

A pandemia do coronavírus se alastrou pelo país cada vez mais fazendo sentir muitos problemas estruturais, mas também a importância de lideranças competentes, tanto para proteger seus colaboradores, quanto para manter ativos os negócios, especialmente no setor da saúde, onde o risco de contaminação é alto em função de ser a linha de frente do enfrentamento ao inimigo invisível.

Quando uma crise multifacetada como a atual atinge a sociedade, lideranças precisam agir rapidamente com o intuito de prevenção, mas também com plano de contingencia e revendo projetos e metas. “A crise sanitária e o papel das lideranças”, foi o tema do webinar do dia 18 de junho, promovido pelo Colégio Brasileiro de Executivos da Saúde (CBEXs) e reuniu dois dos maiores nomes da política nacional: o ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-presidente da Interfarma, Antonio Britto, e o médico e ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. A mediação foi presidente do Conselho de Administração do CBEXs, Francisco Balestrin, que deu as boas-vindas aos convidados e comemorou os mais de 300 inscritos para a conferência.

Serenidade e diálogo

Britto iniciou as exposições falando que é papel de uma liderança em meio à crise manter a serenidade e o diálogo. “Estamos assistindo no Brasil o exercício contrário, onde quem chega ao poder pensa que o poder não está subordinado a nenhuma vontade, a nenhuma determinação, a nenhum regramento. O que mais me dói na condução feita da pandemia no Brasil é o fato de que foi um momento onde as dificuldades brasileiras escancaram. A pandemia simplesmente abriu as janelas e portas das nossas diversas misérias”, disse.

As misérias a que o executivo se referiu são a social, a desestruturação do sistema de saúde – ao que fez questão de frisar os méritos inacreditáveis do Sistema Único de Saúde (SUS), mas que ainda assim teve erros de alocação de pessoas e equipamentos ao longo do país.

“A primeira expectativa das pessoas em relação a um governante é: será que ele está solidário comigo, com meu medo, minha dor, minha insegurança? Ele me passa serenidade e esperança? Ou ele é ao contrário, uma fonte para aumentar ainda mais a minha insegurança e a minha preocupação? A epidemia mostrou até agora que faltou – do ponto de vista objetivo aquilo tudo que se sabe, a miséria, a falta de saneamento, as dificuldades do sistema de saúde, mas acho que o que vai marcar no Brasil não são as nossas lacunas, mas a condução absolutamente inacreditável que foi dada por falta de serenidade, por falta de diálogo”, sentenciou Britto.

Para ele, uma liderança de fato, que mesmo sem condições materiais de apoiar, teria ajudado o país a olhar para o poder e encontrar uma fonte de tranquilidade e não de inquietação, uma fonte de solidariedade e não de desprezo. “Talvez o número de mortes fosse muito menor e seguramente o clima no país seria, apesar de tudo, menos pior do que é hoje”, destacou Britto.

Policrise

Alckmin prosseguiu as discussões dizendo que se vive hoje uma policrise, composta de uma crise sanitária, outra de saúde, outra social, outra econômica e uma crise política. De acordo com o médico, quando a gripe espanhola chegou ao Brasil, em 1918, o governo da época primeiro dizia que era uma gripezinha; depois censurou a imprensa, achando que ela estava fazendo alarde; depois maquiou números; e em seguida ainda fez surgir uma teoria conspiratória de que os alemães teriam enviado o vírus dentro de garrafas pelo mar para o Brasil. 

“Até que o governo chamou o médico e sanitarista Carlos Chagas, que tomou as providências e as medidas científicas e de saúde pública necessárias e ajudou a diminuir o impacto gravíssimo da gripe espanhola no país. A primeira conclusão é que nós precisamos de um “Carlos Chagas”. É preciso trazer alguém do mundo da ciência e do mundo da gestão para poder organizar melhor as ações em um país com as dimensões do Brasil”, disse Alckmin.

Outras epidemias virão

O médico pontuou ainda a importância da Organização Mundial de Saúde (OMS) ter um braço executivo para tratar as questões da pandemia do coronavírus e lembrou que na década de 1980 quando surgiu o HIV e matou 34 milhões de pessoas, a Organização criou uma estrutura executiva subordinada a ela só para tratar a questão de AIDS e se conseguiu equacionar bem. Hoje existem 38 milhões de pessoas tomando antirretroviral e tendo uma qualidade de vida razoável. 

“Digo isso porque as pandemias vão se repetir. Em 2002 tivemos Sars Cov 1, mas restrito à Ásia; em 2008, H1N1; em 2012/13 MERS-COV, mais localizada no Oriente Médio; em 2015 Ebola na África; e agora Sars Cov 2. Essas situações se repetirão no mundo globalizado. A rapidez com que essas epidemias, especialmente as viróticas, podem se espalhar é muito grande. Eu chamo a necessidade da OMS em ter um braço executivo não apenas para monitorar, mas com maior capacidade de ação frente ao problema e especialmente no Brasil, temos que estar preparados para outras ocorrências”, falou Alckmin.