14
Ago
2019

As mudanças tecnológicas na saúde e o envelhecimento da população

Por: CBEXs

A inclusão digital do idoso requer que os componentes de interfaceamento de dados sejam desenvolvidos pensando-se nas características desse consumidor”

   O envelhecimento da população é uma tendência mundial. Avanços em diferentes áreas, relacionadas à medicina em conjunto com o reconhecimento dos direitos dos idosos são considerados fatores que colaboram para a melhoria da qualidade de vida, e consequentemente para um aumento da expectativa de vida e crescimento da população idosa.

    Atualmente no Brasil, a faixa etária maior do que 65 anos, corresponde a aproximadamente 9% da população, podendo chegar a valores próximos de 25% em 2050. 

    O avanço da tecnologia proporcionou às pessoas do mundo todo comunicar-se entre si com muita facilidade e rapidez, de maneira especial através da web. Inicialmente o ambiente web, era considerado como uma forma de tecnologia, voltada à indivíduos altamente capacitados, com elevado conhecimento tecnológico e que em sua maioria, estavam em grandes centros universitários do mundo. Com a crescente popularização da web, na transição da década de 1990 para os anos 2000, a diversificação dos usuários que a utilizavam ocorreu de forma intensa e uma velocidade jamais vista. Essa diversificação ou massificação de usuários nos estimula a desenvolver continuamente, metodologias diferentes que facilitem à utilização de diferentes sistemas por públicos distintos. (NIELSEN, 2000).  

    Não é incomum, que a alta velocidade de implementação de tecnologias, ocasione dificuldades na população idosa, que estão relacionadas não somente ao envelhecimento, mas também à fatores limitantes como recursos financeiros e disponibilidade de acesso à novas tecnologias. A incapacidade de utilizar novas tecnologias, a que um grande percentual da população de maior idade está exposta, poderá ocasionar aumento da dependência à terceiros, reduzindo assim a sua funcionalidade e independência (CZAJA, LEE, 2007).

    Assim a inclusão digital do idoso, requer que os componentes de interfaceamento de dados, sejam desenvolvidos, pensando-se nas características desse consumidor, reduzindo assim alguns obstáculos que atualmente são apresentados aos mesmos. A adoção de wearables, gagdets e aplicativos, user friendly ou elderly friendly, são fundamentais para que a exclusão digital desses consumidores não se acentue. 

    Dessa forma, devemos entender que a incorporação dessas novas tecnologias, necessitam ser totalmente user friendly, sendo adicionadas de forma gradativa e não impositiva. A vontade de consumir as novas tecnologias e/ou abordagens, deve seguir uma lógica inversa, aonde o usuário deve ser estimulado a experimentar e na sequência entender o benefício que o uso dessa nova tecnologia trará ao seu dia, de forma a querer utilizá-la cada dia mais. 

    Levar em consideração o perfil populacional brasileiro é outra grande questão. Nossa descendência latina, fica claramente evidenciada, na medida em que a maioria dos brasileiros, sentem a necessidade do “toque, do contato, do aperto de mão”, entendendo que a relação médico-paciente, vai além da simples troca de informação. Por conta disso, devemos ter cautela em implementar de forma unilateral, soluções tecnológicas, implementadas em larga escala, em países anglo-saxões, por exemplo. 

    Apesar dessa característica populacional, nos grandes centros urbanos brasileiros, como São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, vale ressaltar que o consumidor / usuário, maior de 60 anos, ainda se encontra em plena atividade funcional. Instituir ferramentas que facilitem o seu dia a dia, como por exemplo, a possibilidade do mesmo em sanar duvidas ou otimizar o seu dia, em cidades, cujo trânsito são extremamente adversos, sem que tenha a necessidade de estar presente em uma unidade de saúde, lhe traz benefícios e ganhos, que podem melhorar em sobremaneira a sua qualidade de vida. 

    Considerando-se a telemedicina como ferramenta tecnológica, não podemos nos esquecer, de que as implicações éticas e legais, inerentes à tal condição (SOIREFMANN, 2008), devem ser seguidas à risca, para garantir a segurança, tanto do corpo clínico quanto dos consumidores / usuários, que por ventura se submetam à ela.

    Dentro desse contexto, as mudanças nas tecnologias voltadas aos cuidados com a saúde têm tirado muitos pacientes dos consultórios, pois não é incomum que uma parte das demandas, que os levam ao atendimento presencial, não estão relacionadas à necessidades clínicas que demandam mudança em terapêutica instituída ou em novas demandas de terapia, fundamentalmente são atendimentos relacionados à retirada de dúvidas ou atividades relacionadas ao bem estar / promoção de saúde, em que a disponibilização de forma rápida e eficiente de profissional com capacitação técnica à suprir tais demandas, com o uso de ferramentas tecnológicas, evitam o uso desnecessário do sistema. Esse tipo de tele assistência ou tele consultoria, costuma ser muito bem aceito pelos consumidores, após os 65 anos de idade, principalmente pelo fato, dos mesmos entenderem que não foi lhes subtraído o direito de ser atendido por profissional médico ou de equipes multidisciplinares.

    Contudo, a quebra de paradigmas deve ser contínua, de forma que a inclusão de novas tecnologias e/ou ferramentas seja implementada de forma não esporádica.

    A grande questão é como equilibrar diferentes aspectos de uma população, que está envelhecendo, mas nao se considera senior demais para utilizar algumas ferramentas de tecnologia que facilitam o seu dia a dia reduzindo diferentes necessidades presenciais, ao mesmo tempo em que se consideram senior em demasia para utilizar outras vertentes da mesma população.

*Artigo produzido por Sérgio Antônio Dias da Silveira Jr. | Diretor de Gestão na Prevent Senior


Referências:

CJAZA, Sara J.; LEE, Chin Chin. The impact of aging on access to technology. In Universal Access in the Information Society, 2007. 

NIELSEN, J. Is Navigation Useful? 2000, Disponível em: http://www.useit.com/papers/icab.html.

SOIREFMANN, M, Telemedicina: Uma revisão da literatura. Rev HCPA 2008; 28(2):116-9. 

Disponível em: < http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/28899/000661733.pdf?sequence=1>