16
Jul
2020

As diferentes perspectivas da crise da saúde

Por: CBEXs

Autoridades debateram a pandemia do coronavírus sob as óticas do gestor público, do público e do privado

O Colégio Brasileiro de Executivos da Saúde (CBEXs) reuniu no dia 25 de junho mais três importantes autoridades da saúde nacional em webinar, programação que tem se repetido semanalmente durante a pandemia do novo coronavírus. Dessa vez, o secretário de Saúde do estado de São Paulo, José Henrique Germann; a CEO da Beneficência Portuguesa de São Paulo, Denise Santos; e o médico e deputado federal (PP/RS) Pedro Westphalen debateram a crise da saúde vista por três óticas: do gestor público, do público e do privado. A moderação foi da diretora do CBEXs, Larissa Eloi.

Denise abriu os discursos falando que, do mesmo modo que a saúde privada, a rede pública também se reinventou na corrida para se adaptar ao desconhecido. Segundo ela, é até engraçado colocar que o setor que mais atuou frente a essa crise também tenha sido, pelo menos no quesito hospitalar, o setor que mais complicações enfrentou e lembrou que da noite para o dia pacientes com outras comorbidades desapareceram do hospital.

“Temos uma onda desconhecida, que é como outros pacientes, com outras patologias, que deixaram – por insegurança, por medo – de cuidar da saúde no dia a dia receberão assistência. Sabemos que virá uma onda diferente daquilo que não pudemos cuidar nesse período. Isso preocupa um pouco, mas também não tenho dúvida de que o setor privado está bastante bem preparado para isso”, garantiu Denise. 

Gestão e colaboração

A CEO lembrou que a Beneficência Portuguesa de São Paulo colocou, no atual cenário, quase 800 colaboradores em home office, para liberar o hospital, no que ela própria reconheceu como privilégio em ter uma estrutura grande o bastante para poder segregar o fluxo de pessoas. A instituição que Denise dirige já vem há alguns anos, entre quatro e cinco, trabalhando fortemente na transformação digital e inserindo as pessoas no trabalho remoto. 

“Aprendemos agora que home office faz parte da nossa vida, mas não somos da turma que acha que home office é de cinco ou sete dias por semana. Acreditamos que o ser humano existe para coexistir, para conviver, então encontraremos esse equilíbrio e essa será uma discussão importante. O nosso serviço é a prestação de serviço, queremos proximidade, queremos tratamento, queremos a humanização”, afirma Denise.

Para ela, colaboração nunca esteve tão premente no ecossistema da saúde como um todo, e falar desse ecossistema é englobar os setores público e privado, os quais têm, sim, que conversar, não só cooperar e colaborar, mas terem discussões mais aprofundadas. “Estamos aprendendo com isso, tivemos muitas discussões e aprendizados conjuntos e eu tenho bastante tranquilidade de que nós brasileiros vamos passar por isso. Tenho o desejo genuíno, como cidadã brasileira, de que saiamos mais fortalecidos”, declarou Denise.

Falta de foco

De acordo com Westphalen, muito ficou evidente com a crise, como a importância da representação dos segmentos, e com a saúde não foi diferente, passando a atuar também politicamente. O deputado disse que o parlamento se organizou para estruturar uma comissão externa de combate e prevenção ao coronavírus, a qual tem sido local de discussões e está conseguindo o que o Brasil não conseguiu fazer: despolitizar o debate e se concentrar no problema.

“Na pandemia tivemos algumas questões que ficaram muito claras. Primeiro a desigualdade de um país como o Brasil, problemas de aglomeração em comunidades impossíveis de desfazer, problemas de saneamento no Norte e Nordeste e centros grandes. Também ficou claro a importância da única grande transformação que a América do Sul teve em termos de saúde, que foi o Sistema Único de Saúde (SUS)”, disse Westphalen.

Defesa do SUS

Entre os principais problemas enfrentados pelo SUS está o subfinanciamento, que, segundo o deputado, é um problema recorrente. Entretanto, mostra que uma crise como essa é uma oportunidade para se ter um diagnóstico consolidado e para que os gestores em todos os níveis – municipais, estaduais e federal – olhem aquilo que foi deixado de lado no passado e agora está fazendo falta.

“Temos que defender e consolidar o SUS, mas temos que fazê-lo crescer em cima dos quatro pilares em que se faz saúde: a qualidade, o acesso, a gestão e o financiamento”, alertou o deputado.

Esperança

Na sequência o secretário de Saúde do estado de São Paulo trouxe suas contribuições, tocando pontos preocupantes para além da saúde da população. Segundo Germann, dizem, uma pandemia com essas dimensões trará perda de 9% do PIB nacional. Além disso, o cenário pós-Covid-19 coloca novos desafios: o retorno ao tratamento dos pacientes que abandonaram os hospitais, que equivalem a 30% dos atendimentos.

“Estávamos imaginando que para esse momento seguinte à pandemia, quando precisamos ganhar todo esse tempo perdido, talvez tenhamos que voltar para o orçamento de 2017, pela perda de receita do próprio estado. Nesse sentido, ainda sou otimista e trago boas notícias, dizendo que isso vai passar. Acho que a palavra que temos que colocar em primeiro lugar é ‘esperança’. Não é a quarentena a causadora do problema, é a epidemia”, falou Germann.

Segundo o secretário, a epidemia vai passar e dizer isso traz uma gotinha de esperança que se está colocando pela frente. Além dessa esperança, é necessário haver transparência, a fim de que toda informação importante esteja disponível a todos.