A ética e o profissional da saúde: como lidar com os dilemas?

A Ética, o executivo da saúde e a cultura organizacional e de mercado

O gestor de saúde, não raro, está sujeito a importantes dilemas éticos no curso de suas atividades. No Brasil, o sistema de saúde trabalha com a lógica do cobertor curto, os recursos são insuficientes, mal distribuidos, há pressões por redução de custos de um lado, de outro há o avanço tecnológico que se apresenta cada vez mais eficiente e ainda há de se lidar com a questão do acesso da população à saúde versus a melhoria da qualidade da assistência, além da própria sustentabilidade do sistema, em cheque e, preocupantemente, no limite.

A Saude é complexa, com muitos atores; éticas organizacionais distintas e a pressão por resultados compõem um cenário propício ao surgimento de dilemas nas organizações, e por conseguinte, na vida dos executivos, que além da sujeição à ética organizacional da instituição em que atuam como gestores, sujeitam-se também aos princípios e valores individuais nos quais está sedimentada toda a forma de condução da sua própria vida e nem sempre, esse conjunto concorrente está em harmonia.

De outra parte, é dever do moderno executivo de saúde implementar preceitos éticos nas instituições onde atua contribuindo para um mecanismo de troca constante em que o profissional desenvolve a organização e a organização desenvolve o profissional nas melhores práticas de ética e integridade. Essa é uma atividade infindável porque os dilemas éticos de hoje são diferentes dos que se impunham ontem e certamente serão diferentes dos que teremos amanhã. Portanto, a formação em ética nunca se completa e nunca se esgota e deve ser implementada em todas as organizações de saúde de maneira regular.

Nesta troca é imperativo que os executivos assumam com coragem a missão de criar mecanismos que assegurem que toda a organização estará pautada em preceitos éticos, garantindo que floresça em cada colaborador o sentimento de pertencer, de unidade de valores e princípios e que se forme um círculo virtuoso perene que reflita e, constantemente, reforce a cultura da organização.

O sentido moderno de competência não está mais adstrito apenas ao saber puramente técnico, tecnológico e cientifico, ele deve também congregar o que os filósofos chamam de saber-saber, que adiciona à tecnicidade a ética, a moral, os valores, crenças, atitudes e comportamentos.

Há poucos anos era recomendável que esse conjunto de valores estivesse sistematizado num código de condutas, na declaração de sua missão e valores e que fossem assegurados mecanismos de apoio aos executivos para tomada de decisões, materializados na formação de comitês de ética plurais e heterogêneos, que reunissem diferentes perspectivas e que fossem capazes de refletir sobre os eventuais dilemas e suportar os executivos nas decisões mas, hoje em dia, já falamos em modernos sistemas de compliance, livremente traduzidos para sistemas de integridade ou conformidade, e que vão significativamente além de seus precursores, prevendo o mapeamento detalhado dos riscos de cada instituição e a instalação de um canal para recebimento de eventuais denúncias de falhas éticas ou até legais que podem ameaçar a instituição, acionando esse complexo sistema com a aplicação de medidas preventivas e corretivas na contenção dos riscos.

Os mecanismos de compliance ou integridade já são uma realidade na cadeia de fornecimento e em hospitais no exterior e estão, cada dia mais, sendo implementados em instituições de saúde nacionais, revertendo-se em modernos e complexos sistemas que monitoram, detectam e mitigam os riscos corporativos e de colaboradores garantindo e fomentando que decisões éticas sejam a tônica no setor saúde.

Mais modernos ainda são os sistemas de compliance integrados que transpassam as fronteiras das instituições para mapear os riscos nas relações entre os players da cadeia produtiva da saúde, gerando espaços de discussão independentes e livres de interesses setoriais convertendo-se em sistemas puros, autônomos e administrados em modelos de governança compartilhados pelas instituições participantes. É a metodologia dos acordos setoriais, defendida e propagada pela ONG Transparência Internacional e pelo Instituto Ethos que se aplica a qualquer setor da economia e que vem marcando espaço no setor saúde, esportes, construção civil, entre outros.

São recursos modernos colocados à disposição dos executivos brasileiros para construir e manter um ambiente ético e sustentável no setor de saúde.

*Claudia Scarpim é Diretoria Executiva do CBEXs